• Eduardo Rafael

O self-service da magia do caos: o problema da popularização dos servidores.

Atualizado: 20 de Jan de 2019


Minha jornada começou há 17 anos. A data em si não é importante, mas o contexto sim: a internet ainda era discada em muitas localidades, dificultando a propagação de material e conhecimento que temos hoje; existiam poucos livros disponíveis no mercado e grande parte do material era estrangeiro e não existiam traduções; não era tão simples entrar em contato com uma Ordem como é hoje e era difícil achar alguém que se interessasse pelo estudo da magia fora dos poucos grupos na internet. Com poucos exemplos já é possível notar os benefícios que a tecnologia propiciou. A facilidade de acesso ao conhecimento trouxe outra questão: a popularização.


A cultura pop bombardeava a mídia com referências ocultistas desde a década de 80, gerando curiosidade acerca de determinadas temáticas. Uma das que mais se beneficiou desse processo foi a magia do caos. Magia do caos é um metassistema idealizado na década de 70 por Peter Carroll como base para O Pacto da IOT. Sob o mote “Nada é verdadeiro, tudo é permitido”, o metassistema ganhou destaque por se caracterizar como “prático, pessoal e experimental”. Isso abre margem para que cada praticante tenha uma metodologia própria e ainda assim não existir certo e errado.


A “quebra de paradigma” ou uso de crenças é outra característica singular da magia do caos. Por meio dessa, o praticante pode alternar entre crenças, fazendo uso do que lhe convir. É válido lembrar que isso não tira as responsabilidades do praticante com as energias ou entidades que ele vier a trabalhar. Outra marca da magia do caos é o uso de sigilos e servidores. O uso de sigilos ou a técnica de sigilização foi inspirada na experiência do Austin Osman Spare, porém existem similaridades com técnicas usadas pela cultura nórdica e africana. A técnica em si consiste em codificar uma frase e enviar ela para o subconsciente. Mais tarde outras derivações da técnica surgiriam, como os hipersigilos.

Austin Osman Spare

Como já mencionado, os servidores são a outra cereja do bolo da magia do caos: formas pensamento limitadas a cumprir determinadas tarefas. Phil Hine já descrevia as formas de criação de servidores desde a década de 90, variando de criações do zero ou uso de entidades menores (como elementais). Os relatos bem-sucedidos começaram a atrair o olhar dos curiosos: servidores criados por um magista poderiam beneficiar e receber ordens de outras pessoas, tornando-se servidores públicos. A fórmula de criação do Fotamecus logo se espalharia e ao longo dos últimos anos começaria uma corrida em busca da criação de um “panteão de servidores”. Após a pequena introdução, chegamos no ponto que queremos abordar: o uso em massa dessa técnica.


Não é difícil encontrar informações e agradecimentos para servidores de magia do caos na internet, em especial nos respectivos grupos do metassistema. As indicações de usos de servidores são cada vez maiores, em especial para pequenas conquistas. Com as mais variadas funções, personalidades e formas de evocação, servidores se tornaram populares pela facilidade de se trabalhar e pelas promessas de executar o pedido sem questionamento.


Aos pioneiros, os espólios da descoberta do novo território: os servidores mais antigos se tornaram poderosos, grandiosos o suficiente a ponto de se auto denominarem deuses das suas próprias funções. Os mais novos trilham o mesmo caminho dos antigos e veem no marketing uma ferramenta para divulgação. Porém a autopromoção vem com um preço: se antes as ritualísticas se limitavam ao uso do sigilo e uma vela, agora seria necessário uma adoração velada por meio de atenção e oferendas que variam de energia, comida ou ações do praticante. Nota-se ai uma semelhança enorme com a adoração de deuses antigos.


Outro ponto é que muitos criadores de servidores afirmam que seus servos só conseguem executar suas funções por meio da bênção ou uso de energia de uma outra egrégora. Com isso em mente, chegamos no questionamento: se a forma de agradecimento a um serviço de um servidor é semelhante a de um deus e um servidor faz uso de uma mesma energia que um deus, porque as pessoas dariam prioridade a uma cópia genérica ao invés de ir direto na fonte? Ora, já demos a resposta: a praticidade e promessa de executar a função sem questionamentos. Seriam pontos extremamente positivos se por outro lado não estivéssemos contribuindo para uma geração de magistas que não sabe lidar com um não. A velha brincadeira do “servidor que virou tulpa” mostrando o quanto os novos magistas não possuem base alguma para lidar com entidades com consciência (e isso é extremamente explícito no medo que muitos praticantes têm dos daemons da goécia).

Ganesha - Deus da prosperidade, abertura de caminhos entre outras virtudes

Cria-se a ilusão de que o magista é todo-poderoso quando o mesmo não consegue compreender porque está passando por determinada situação. É inevitável que uma entidade com consciência própria possa vir a dizer coisas que não nos agradam. Sente-se e tenha uma conversa com um exú em um terreiro sério e entenderá o que eu estou falando. No caso de uma entidade decidir não “obedecer” a vontade do magista, a falta de argumentação é um ponto chave que deve ser trabalhado. Argumente, questione, busque compreender porque sua vida financeira ou amorosa não se encontra como você gostaria que estivesse e combata o problema na raiz.


Tá, mas QUAL SERVIDOR EU USO?


Esta é uma pergunta que aparece com grande frequência nos grupos de magia, basta digitar “Qual servidor eu uso?”, e surge uma enxurrada de opções. Uma resposta óbvia seria: o que você fizer. Mas essa pergunta traz outras implicações: a falta de conhecimento e desinteresse em buscar o conhecimento por conta própria. É um fato que a internet condicionou as gerações mais novas a adquirirem as respostas de forma instantânea e ao alcance das mãos, e essa pergunta é exatamente sobre isso. As pessoas preferem uma fórmula pronta do que estudar e executar uma prática que trará muito mais gratificação e resultados. Se você pretende permanecer no caminho da magia, é inevitável que você tenha que ler, anotar, buscar e cruzar informações e praticar a fim de constatar a eficácia do conhecimento.


Outra ideia disseminada é que só se faz magia do caos com técnicas de magia do caos, sendo essa extremamente errônea: minhas maiores realizações foram usando práticas adaptadas do tradicionalismo. Pensar desta forma só leva a criar uma crença dominante (e limitante) sendo que a própria magia do caos é sobre não criar vínculos com crenças. Se sigilos e servidores não funcionarem ou se não atingirem uma meta grandiosa demais, faça uso de pantáculos, runas, ervas, etc... Experimente técnicas novas, por mais que elas não sigam a sua vertente.


Concluindo: o uso de servidores de forma alguma é errada, porém é limitada por mais prática que seja. O indicado é que o magista tenha conhecimento acerca da situação e que faça uso de técnicas mais efetivas, de forma a obter sucesso. Se limitar a só fazer uso de sigilos e servidores é provar doses homeopáticas do que a magia do caos pode oferecer.

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